Flor, não se renda ao beija-flor

Flor, o beija-flor sabe que flor procura. Ele faz questão de visitar a flor mais doce. Com seu charme e galanteio, conquista em suas primeiras atitudes. Sabe bem como agir. Esperto, esse passarinho. 
Esperto esse passarinho que voa o tempo todo, que visita uma, duas, três, quantas flores quiser. Esperto esse beija-flor que lhe rouba a atenção, lhe tira o néctar e voa em outra direção.
Flor, atente-se à chegada do beija-flor. Você é doce, você é linda, mas é só mais uma flor da grande variedade existente no jardim daquele pássaro matreiro, colecionador de flores. Ele escolhe qual flor visitar e quando visitar, e pode nunca mais querer visitar você, mesmo que seu néctar seja doce o bastante. Ah, flor...
O beija-flor é bicho esperto, não se rende a uma flor qualquer, mas deseja que qualquer flor se renda aos seus encantos. Há um ego que precisa ser sustentado, jamais ferido.
Há um jardim meio mais ou menos, cheio de flores mal-cuidadas, mal amadas, visitadas, deixadas, apaixonadas, iludidas. Flores inocentes, outras, nem tanto, mas na esperteza se deixaram encantar.
Há um beija-flor que voa sem rumo, visitando flores todo o tempo, não se prendendo a nenhuma.
Flor, você não esperou tanto para que um beija-flor qualquer lhe roubasse o que há de mais puro em você. Floresceu, manteve-se paciente em sua posição, não se rendeu a qualquer outro encanto. Tenha cuidado com o beija-flor. 
Por traz da bela aparência existe um aventureiro sem rumo definido, alguém que apenas vai usar você um pouquinho, se aproveitar da sua doçura e simplicidade e partir.
Fique firme em seu lugar, feche-se ao beija-flor. Deixe que ele tome seu voo sem que você seja ferida.
Quem sabe um dia o beija-flor não visite uma rosa e se fira em seus espinhos. O que tem de linda e sedutora, tem de perigosa. Quem sabe um dia não se embale no encanto de uma senécio e se contorça com o veneno que experimentou. 
Flor, não se curve, não murche. Deixe a estação passar, suas pétalas caírem e o vento lhe levar na direção certa. E quando o beija-flor voltar, se ele voltar, ferido, cabisbaixo, verá que aquela flor, a simples e doce flor, partiu.